Equipe brasileira conquistou ainda um vice-campeonato, dois terceiros lugares e um quarto superando o desempenho o mundial de 2022. Apoio do Ministério do Esporte garantiu a ida de toda a delegação para Huntington Beach.

Cinco campeões mundiais, uma vice e dois terceiros lugares. O Brasil pode continuar a ser considerado o país do surf adaptado depois de mais uma participação vencedora no Campeonato Mundial de Parasurf da ISA, realizado no começo de novembro em Huntington Beach, na Califórnia. A participação Brasileira teve apoio do Ministério do Esporte que viabilizou a ida de toda a delegação a partir de Termo de Fomento celebrado com a CBSurf e contou também com o apoio do CPB.

“Acho que a gente tem que olhar para essa participação do Brasil de forma ‘energética’, de carisma, porque o que aconteceu nesse mundial na Califórnia é que o Brasil parou o campeonato, simplesmente chamou mais atenção do que qualquer outra equipe”, explicou o presidente da Confederação Brasileira de Surf (CBSurf), Flávio ‘Teco’ Padaratz. Ele comemorou a campanha da equipe brasileira que superou a do mundial de 2022, com uma medalha de bronze a mais e todo o barulho que os integrantes faziam para apoiar cada brasileira e brasileiro que estava na água.

Teco também lembrou do esforço da CBSurf na organização dos campeonatos, bem como a dupla superação de cada atleta que, diante das suas características, continuam treinando e se esforçando para participar de competições.

A gente ainda não consegue desenvolver a contento o Parasurf no Brasil por não haver amparo pela lei, do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), daí temos que buscar verbas extraordinárias onde temos que destacar este ano o apoio do Ministério do Esporte que não fez vista grossa, olhou para o parasurf com carinho e reconheceu o potencial da nossa equipe que foi lá e brilhou”, avaliou o presidente, sobre os recursos que garantiram a ida de surfistas e comissão técnica para a Califórnia.

A festa das medalhas

Entre os homens, o Brasil conquistou cinco títulos das nove categorias em disputa e por muito pouco a sexta medalha de ouro não veio. Na categoria cegos, o bicampeão Figue Diel (PS VI1) vinha favorito para a conquista do tri liderando com sobras todas as baterias, até que foi punido por cometer interferência ao entrar em uma onda quando seu adversário estava com a prioridade.

“A regra foi interpretada de forma correta, mas é uma regra para videntes. Meu guia não errou ao me colocar na onda porque eu estava muito distante do surfista alemão, o que gerou até um debate sobre a necessidade de adaptação da regra. Com a nota da minha primeira onda cancelada, só valeu a nota da segunda e acabei em terceiro lugar”, explicou Diel, atleta que impressiona por, mesmo sem enxergar, ter desenvolvido a capacidade de perceber a pressão dos movimentos de sobe e desce do mar sob a prancha para identificar a chegada de uma boa onda. Ele disse estar motivado para continuar os treinos e tentar o tricampeonato ano que vem.

Entres as medalhas de ouro conquistadas, uma reluziu pela primeira vez no peito de um novo campeão: Dijackson ‘Gato de Botas’ (PS S3) e novamente no peito de três surfistas que defendiam o título e confirmaram a hegemonia nas suas categorias: Rafael Lueders (PS-S2), Davizinho Radical (PS Prone 2) e o hexacampeonato de Fellipe “Kizu” Lima (PS-Sit),capitão do time brasileiro, que igualou o recorde de títulos do dinamarquês, Bruno Hansen, estabelecido em 2021.

Outro destaque foi a participação arrasadora de Roberto Pino (PS-S1) nas semifinais com dupla nota dez, estabelecendo a primeira bateria perfeita (20 pts) da história do parasurf mundial. Em seguida na final, outra atuação gigante garantiu o título ao marcar 17 de 20 pontos possíveis na final.

Além de Figue Diel, o outro terceiro lugar foi de Malu Mendes (PS S2). Ela é um exemplo de que o nível do parasurf brasileiro está tão alto que a medalha de bronze não satisfez a sua vontade de vencer. “O terceiro lugar é muito bom, mas não fiz um bom campeonato. Não consegui mostrar o meu surf”, lamentou a surfista que já tem aspirações evoluídas acima da mera participação, já que acabara de conquistar o título do Circuito Mundial de Parasurf, em setembro.

Henrique Saraiva (PS-Kneel) ganhou ainda a medalha cobre pelo quarto lugar em uma categoria de nível altíssimo. O time brasileiro contou também com a participação de Tiana Dantas (PS-S1), Monique Oliveira (PS Prone 2), Thiago Dantas (PS Prone 1), Miguel Flavio (VI 2) que não se classificaram para as fases finais.

O ‘corre’ da melhor brasileira em Huntington

Estreante em mundiais, Vera Aguilar Quaresma (PS-Kneel) completou as conquistas brasileiras com a melhor colocação entre as mulheres. Quem vê a medalha no peito não faz ideia das dificuldades que Vera precisou superar do período de cerca um mês e meio entre a classificação para o mundial adquirida em Cabedelo/PB até a chegada em Huntington Beach.

Além do clima em Santa Catarina que ora atrapalhava, ora impedia treinos com muita chuva, frio e até um tornado, Vera precisava de equipamentos básicos como roupa adequada para as geladas águas californianas e uma prancha especial para o kneeboard, o surf de joelhos, já que usava prancha comum.
“Eu só tinha uma roupa de borracha velha que não era vedada. Entrei em contato com algumas empresas, mas não consegui nada até que um amigo, João Lanças, que tem loja de surf, conseguiu materiais a preço de custo dos quais fiz uma rifa que me permitiu pagar pela roupa”, explicou Aguilar.

Já a prancha chegou diretamente do Guarujá/SP às mãos de Vera a apenas três dias do seu embarque aos EUA, feita pelo amigo shaper “Rafinha”, para a qual Vera pagou somente o material. Outro apoio importante veio do professor Josué Rezende na forma de treinos diários com o grupo de sua escolinha de surf, no auxílio para levar equipamentos até a água e na orientação entre fazer freesurf e estar em um campeonato com pouco tempo para realizar manobras. Um exemplo de porque se considera que competir no alto rendimento é praticamente um esporte coletivo.

Paulo Kid, técnico da equipe brasileira comemora com os resultados obtidos pela delegação.
“Foi um prazer e um desafio como técnico acompanhar a delegação brasileira de Parasurf. Um prazer, pois, toda delegação estava numa vibe muito boa e um desafio por precisar lidar com atletas que performam de maneiras muito distintas. Se adaptar e aprender sobre cada categoria e estilo de surf é uma demanda diária.”

A delegação brasileira com certeza impressionou a todos pela sua garra, alegria e talento.

Ministério do Esporte

Em 2022, a CBSurf chegou a criar campanha de arrecadação de pessoas físicas e jurídicas para levantar os custos referentes à hospedagem, alimentação, inscrições, seguros de viagem e traslados para levar toda a delegação que fez campeões e campeãs mundiais em cinco das nove categorias disputadas. Em 2023, com o Termo de Fomento do Ministério do Esporte celebrado junto a CBSurf, permitiu que 14 surfistas e comissão técnica tivessem a tranquilidade para representar e, mais uma vez, encher o Brasil de orgulho.
“Foi incrível a participação dos nossos atletas, a Secretaria Nacional do Paradeporto do Ministério do Esporte (SNPAR/MEsp) busca priorizar o apoio às modalidades não-paralímpicas, como é o caso do parasurf, que carecem de maior visibilidade e que por isso não atraem muitos patrocínios”, explicou o secretário nacional do Paradesporto do MEsp, Fábio Araújo. “Estamos orgulhosos em ver novos ídolos do esporte surgindo, outros se firmando para motivar que mais pessoas comecem a praticar esportes”, comentou.

Parasurf: lutas e perspectivas

Vencendo em quase todas as categorias que disputou, de acordo com Padaratz, a surpresa geral foi o Brasil ficar apenas com o bronze por equipes. Entre os motivos, ele atribui a falta de mulheres nas categorias femininas, já que o Brasil disputou apenas quatro das nove disputadas.“Se a gente conseguir desenvolver um bom circuito nacional, vamos poder revelar muitos garotos, mas também as garotas, que estão em casa achando que o surf não é para elas. Sentimos no Ministério do Esporte um interesse muito grande em dar suporte ao parasurf reconhecendo-o como é de fato: um grande ato entre os esportes pela inclusão, pelo social e principalmente pela perspectiva de mais medalhas paralímpicas”, reiterou, já que o evento também serviu para o COI e os organizadores da Olimpíada de Los Angeles 2028 avaliarem se a modalidade se enquadra no programa paralímpico, bem como quais as categorias entrariam na disputa.

Brigitte Mayer, vice-presidente feminino da CBSurf e coordenadora da delegação de parasurf, concorda e enxerga que em pouco tempo novos valores irão despontar no cenário do parasurf brasileiro. “Estamos apenas no começo, o parasurf brasileiro já era conhecido como potência mundial no esporte. Nesta gestão enxergamos o parasurf como uma categoria de muito potencial e muito inspiradora. Oferecemos as mesmas condições a delegação brasileira de parasurf que oferecemos a todas as outras delegações, mesmo sendo ainda uma modalidade não-paralímpica. Toda essa visibilidade irá fomentar o parasurf, é natural surgirem novos talentos tanto no feminino quanto no masculino.”

O Ministério do Esporte estabelece entre as prioridades para incentivar projetos a promoção e incentivo à prática de esporte pelas mulheres. Em perspectiva, caso o IPC integre o parasurf ao programa paralímpico, a modalidade passará automaticamente a ser contemplada pelo programa Bolsa Atleta do governo federal.

Confira o resultado final:

Equipe
Ouro – França
Prata – EUA
Bronze – Brasil
Copper – Inglaterra

Homens PS-VI2
Ouro – Aaron Paulk (HAW)
Prata – Roy Calderon (CRC)
Bronze – Pierrot Gagliano (FRA)
Copper – Jack Jackson (AUS)

Mulheres PS-VI2
Ouro – Aleli Medina (PUR)
Prata – Melissa Reid (ENG)
Bronze – Lou Mechiche (FRA)
Copper – Ling Pai (CAN)

Homens PS-VI1
Ouro – Kirk Watson (AUS)
Prata – Thomas Da Silva (FRA)
Bronze – Elias Ricardo Diel (BRA)
Copper – Ben Neumann (GER)

Mulheres PS-VI1
Ouro – Marta Paço (POR)
Prata – Valentine Moskoteoc (FRA)
Bronze – Carmen Lopez (ESP)
Copper – Juliette Mas (FRA)

Homens Prone 2
Ouro – Davi Teixeira (BRA)
Prata – Jose Martinez (USA)
Bronze – Tomoki Fujiwara (JPN)
Copper – Ander Goenaga (ESP)

Mulheres Prone 2
Ouro – Sarah Almagro (ESP)
Prata – Jocelyn Neumueller (AUS)
Bronze – Celine Roulliard (FRA)
Copper – Ann Yoshida (HAW)

Homens Prone 1
Ouro – Joel Taylor (AUS)
Prata – Christian ‘Otter’ Bailey (USA)
Bronze – Casey Proud (HAW)
Copper – Kai Colless (AUS)

Mulheres Prone 1
Ouro – Emma Dieters (AUS)
Prata – Kayla Woputz (HAW)
Bronze – Tracy McKay (RSA)
Copper – Paloma Onate (ESP)

Homens PS-Kneel
Ouro – Llywelyn ‘Sponge Williams (WAL)
Prata – Ibon Oregi (ESP)
Bronze – Reddog Wheatley (AUS)
Copper – Henrique Saraiva (BRA)

Mulheres PS-Kneel
Ouro – Victoria Feige (CAN)
Prata – Vera Quaresma (BRA)
Bronze – Audrey Pascual (ESP)
Copper – Emmanuelle Blanchet (FRA)

Homens Stand 2
Ouro – Rafael Lueders (BRA)
Prata – Ismaël Guilliorit (NOR)
Bronze – Jean Paul Veaudry (RSA)
Copper – Kenjiro Ito (JPN)

Mulheres Stand 2
Ouro – Laurie Phipps (FRA)
Prata – Zoe Smith (ENG)
Bronze – Malu Mendes (BRA)
Copper – Kirsty Taylor (WAL)

Homens Stand 1
Ouro – Roberto Pino (BRA)
Prata – Shingo Kato (JPN)
Bronze – Camilo Abdula (POR)
Copper – Maxime Clarkin (FRA)

Mulheres Stand 1
Ouro – Nagisa Ikegami (JPN)
Prata – Liv Stone (USA)
Bronze – Catalina Castro (CHI)
Copper – Chikako Takao (JPN)

Conheça as classes do parasurf certificadas pela ISA:

Stand 1 (PS-S1) : qualquer surfista stand-up com amputação de membro superior ou deficiência comparável. Esta aula inclui também aquele surfista com estatura reduzida.
Stand 2 (PS-S2) : qualquer surfista de stand-up com amputação abaixo do joelho ou deficiência comparável.
Stand 3 (PS-S3) : qualquer surfista de stand-up com amputação acima do joelho ou deficiência comparável.
Prone 1 (PS-P1) : qualquer atleta que surfe deitado na prancha e não necessite de ajuda/auxílio para remar, pegar a onda e subir na prancha.
Prone 2 (PS-P2) : qualquer atleta que surfa deitado na prancha e PRECISA de ajuda para remar, pegar a onda e subir na prancha.
Joelho (PS-K): qualquer surfista que surfe de joelhos com amputação acima do joelho, amputação dupla abaixo do joelho ou deficiência comparável.
Sit/Waveski (PS-Sit) : qualquer surfista que surfe sit-up com remo e não necessite de assistência.
Deficiência Visual 1 (PS-VI1): Surfistas cegos.
Deficiência Visual 2 (PS-VI2): Surfistas com deficiência visual.

A equipe brasileira de parasurf contou com o apoio do Ministério do Esporte, Secretaria Nacional de Paradesporto, Comitê Paralímpico Brasileiro, Galápagos Outdoor, Prefeitura de Balneário de Camboriú e Fecasurf.

Yusseff Abrahim – Especial para a CBSurf

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